portuário

25Jun08

certo, um porto, cenário sugestivo. indecisão, frio e vento – motores não poluentes pra um texto, mas um inferno completo pra se acender uma porra de um cigarro. a literatura nunca foi uma coisa muito prática. levante uma dessas ripas de madeira e o texto começa… deveria, pelo menos. mas o maldito vento me atrapalha a acender a merda do cigarro. eu tenho que me abaixar, tentar pegar um ponto perfeito atrás de alguma coisa que segure o vento, fugir de um dos meus elementos metafóricos pra acender o cigarro. mas isso passa e eu começo a fumar. o texto começa bem, começa com fogo, com a reviravolta ancestral de quando a gente aprendeu a controlar as chamas. antes esquentava, mas aqui eu começo a tremer, porque sim, são duas e meia da manhã e eu estou procurando um propósito pra estar num porto, o que, pra ser sincero, é meio difícil de achar. é a porcaria da beleza da literatura – estar sozinho em um porto às duas e meia da manhã, numa quarta-feira, poético pra caralho.

que se foda. são duas e meia da manhã e eu estou em casa, bebendo uma cerveja e acendendo um cigarro sem qualquer esforço. confortável, mas provisório, porque o cigarro acaba.

de volta ao porto. o cigarro acabou, e eu ainda estou procurando uma razão pra ter me colocado aqui, no porto, às duas e meia da manhã. na falta de uma razão, mais um cigarro. bem, às duas e meia da manhã, tudo bem. são duas e meia da manhã porque no meu apartamento são duas e meia da manhã de fato – e é assim praticamente o tempo todo. e, não, por favor, sem simbologias baratas.

um breve histórico erudito de portos: camões e… e já encheu, procure uma enciclopédia. portos são aqueles lugares lindos. adeuses e boas vindas sustentados por vigas de madeira sobre água. óleo sobre tela, sobre adeuses e boas vindas sustentados por vigas de madeira sobre água. acordes dissonantes sobre quatro por quatro, sobre… palavras sobre papel sobre…bem… eu, sentado em um porto, nem bem vindo nem dizendo adeus, sobre vigas de madeira. sobre água.

eu gosto de alimentar esperanças, como peixinhos dourados. porque eventualmente eu deixo eles morrerem. faz mais sentido assim. mais do que esse porto.

originalmente de 26 de novembro de 2006



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